Only for the lunatics, only for the rares... *       Slechts voor krankzinnige, slechts voor zeldzame...*

 

"Só para os loucos, só para os raros..."

Estas palavras misteriosas no Lobo da Estepe se aplicam não só aos que gostam de gravura como aos que as fazem. Norma Mobilon não poderia ser diferente, para apreciar seus trabalhos é preciso ter afinidade com Pöe ou Lovecraft na literatura da cripta. São seus companheiros na fantasia gráfica Ensor e Posada. É interessante observar que embora tematicamente explorem o universo do mórbido e do grotesco em Ensor há ironia e agressividade, em Posada as calaveras são afins com o comportamento mexicano nos Finados, são gravuras mais zombeteiras do que cruéis, como fábulas! Nas águas-fortes e águas-tintas (só para raros), a beleza dos crânios e ossos é realizada sem a intenção de chocar, é uma autêntica natureza morta.
As aguadas e pontas-secas trazem valores gráficos sutis e poderosos, é um mundo sombrio, sem dúvida, refletindo o estado de espírito de todos nós hoje em dia mas sua força gráfica não tem nada de pessimista é vibrante, vital.
Mergulhar nestas gravuras é uma experiência única.

Marcello Grassmann 2002

Texto de apresentação da exposição realizada na Galeria Sesc Paulista, junho/julho 2002


These mysterious words in ''Der Steppenwolf*'' are applied not only to the that like engraving as to the that make them.
NORMA MOBILON could not be different; to appreciate your works it is necessary to have affinity with Pöe or Lovecraft in the crypt literature.
Ensor and Posada are your partners in the graphic fantasy.
It is interesting to observe that however thematically they explore the universe of the morbid and of the grotesque, in Ensor is irony and aggressiveness, in Posada the 'calaveras' are kindred with the Mexican conduct in the day of dead's, they are prints more mocking than cruel, as fables!
In the strong waters and dyed waters (only for rares), the gracefulness of the craniums and bones are accomplished without the intention of shocking, it is a genuine still life.
The waterys and dry points get subtle and strong graphic amounts, it is a gloomy world, without a doubt, reflecting the spirit condition of all us nowadays, but your graphic force doesn't have anything of pessimistic, it is vibrant, essential.
To dip in these engravings is an only experience.

Marcello Grassmann.
2002

* in 'Steppenwolf: A Novel' of Hermann Hesse (1927).



Cor Sobre Imagem

Cor e imagem impressas são apresentadas neste trabalho como duas coisas distintas que, no entanto, interpolam-se, imbricam-se, o tempo todo, nas séries de gravuras “sorriso, azulejos, janelas e paisagens, imagens evanescentes, e escuridão”. Como resultado dessa interpolação, desse ‘embate’ entre cor e imagem impressa, segundo a própria artista, surgem alterações no modo como a imagem (ou seja, o amálgama daquelas duas coisas) é apreendida visualmente. A tese ou o conceito que Norma nos dá a ver, por outro lado, conjuntamente a estas imagens, é a de que, diante delas, o olhar é conduzido a uma experiência temporal. O que me parece mais interessante neste trabalho é que Norma Mobilon encontrou uma forma de operar o lugar comum do sentido da morte, alegorizada historicamente como sombra, rastro, vestígio, fantasma, espectro da noite, etc., de forma irônica, com os recursos da própria gravura, arte na qual a artista dá inequívocas demonstrações de domínio e de emprego sutil, refinado quanto aos seus aspectos procedimentais. Nos breves comentários introdutórios feitos pela artista para cada seqüência de imagens há, quanto à questão da interpolação ou ‘embate’, aparentemente a sugestão de uma subordinação da imagem impressa ao campo de cor, na medida em que este afeta mais aquela do que aquela a este. Penso que talvez o que a artista esteja nos propondo, é a remissão de uma imagem gravada, fortemente concebida e inscrita numa forma fechada, seja pela linha, ou por pontilhados, e pontos, vestígios de furos nos intervalos de grãos de breu, à posição de simulacro ou sombra de cor que dilui ou dissolve a certeza quanto ao que se vê obtida pelo primeiro desenho, pela primeira gravura. A incerteza produz no destinatário, o espectador dessas gravuras, a impressão de algo em transição, uma vez que a cor vibra, fazendo da morte certa no sorriso da caveira, a passagem incerta quanto ao que avança ou recua de um plano a outro de cor, portanto, reativando a ironia quanto à morte como duplo, imóvel-móvel, inanimado-animado; ausente, presente? A ironia vence a morte, pois morte certamente não há, mas o seu conceito e aplicação deste, sejam às coisas da natureza, sejam às da arte. Percebo que, pensado ou não, o trabalho de Norma Mobilon comenta o lugar da gravura na arte atual. Não o lugar da morte, por certo, mas o da inteligência e agudeza capazes de iludi-la ou dela, produzir ilusão.

2010

Profº Dr. Luiz Armando Bagolin
Docente e pesquisador do IEB-USP, Diretor da Biblioteca Mario de Andrade.